Do lado errado da história

Ontem, com os companheiros da Ulatoc (www.ulatoc.org), eu analisava as mazelas do Governo Lula. As mesmas que já comentei em posts anteriores. Concluí dizendo que o errado devo ser eu, visto que 80% dos brasileiros aprovam nosso Presidente.

Estou do lado errado da história, a maior parte do tempo. Em algumas questões, por condicionamento histórico e social, em outras, por escolha própria. Vamos lá.

Torço para o Atlético Mineiro. Sou protestante. Escolhi a marginalidade no protestantismo (Bonhoeffer – não o do Discipulado, mas o de Ética e Resistência e Submissão).  Identifiquei-me com o Cristo que emerge dos evangelhos sinóticos mas não é proclamado nas igrejas. Adoro a Argentina e tenho bons amigos neste País. Detesto cerveja e chopp. Não gosto de Lula e nem de Dilma. Penso que a governabilidade é um mito criado para justificar o patrimonialismos de todos nossos Governos. Entendo que Saúde tem que ser pública. Limito as doações que recebo para fazer campanhas – muito dinheiro como condição para ser eleito é a negação da democracia.

Quando gritam na igreja eu prefiro o silêncio. Quando fazem silêncio eu quero um pouco de barulho. Se há muito choro eu quero um pouco de riso. Se há muito riso eu penso que um pouco de choro seria bom. Se desancam o Lula eu o defendo (acreditem), se o elogiam eu ataco.

Resumidamente, acho que sou “meio” chato.

Teia de interesses

Nos idos de 99 a Câmara dos Deputados realizou a CPI do Narcotráfico. Visitou diversos estados, fazendo audiências públicas, levantando informações, apurando denúncias. Tive a oportunidade de participar de algumas dessas atividades, invlusive fazendo viagens com os parlamentares.

Em um determinado Estado, as investigações conduzidas chegaram a dois “elementos” que faziam parte da equipe política do cônjuge de um membro da CPI. Quem teve acesso à informação fingiu que não viu, e havia tanta coisa para investigar que essa saída pela tangente nem foi percebida.

A dificuldade maior para o enfrentamento do tráfico são essas conexões que se verificam em todos os níveis. Desde o interesse mais rasteiro de agentes do Estado que se beneficiam de forma fragmentada e em pequenos valores das atividades dos traficantes, até os relacionamentos nos âmbitos jurídico, econômico e político com empresas, entes do sistema financeiro e parlamentares e outros agentes políticos, entre eles o próprio aparelho repressivo do Estado de forma mais ampla.

O fato de a ação do Estado ter ocorrido como resposta à série de ataques dos narcotraficantes talvez fosse a única possibilidade real de que um enfrentamento dessas proporções ocorresse, dados os interesses acima mencionados.  Ou seja, não partiu de uma determinação do Estado em fazer tal confronto.

Mas, de uma maneira ou de outra, surgiu motivado por ações do Estado, visto que há uma relação clara com a perda de território e, consquentemente, de poder financeiro, por parte dos traficantes, por causa das ocupações dos morros pelas Unidades de Polícia Pacificadora. Talvez haja um estrategista por trás disso, que tenha previsto todos esses movimentos, talvez não. Qualquer que seja a situação, vale a pena estudar esse evento, pois há outras batalhas semelhantes a serem travadas no País.

Essa tentativa de um olhar levemente analítico sobre a situação não pode permitir que se esqueça da tragédia social e humana que estamos vivendo, da dor do que estão perdendo seus queridos. Isso me leva a ressuscitar uma ideia que tenho para a gestão pública, que pode ser comentada talvez no próximo post: A gestão por causa mortis.

Por dentro também…

A luta política é travada em dois fronts: externo e interno.

Externamente, temos que dar conta, aqui em Brasília, de um governo que foi eleito com a inescapável missão de criar referenciais éticos bem mais elevados do que o emblemático Durval e seu esquema impuseram à cidade. Dificílimo acreditar que Agnelo vai levar a sério essa tarefa, como deve ser levada. Basta ver que sua equipe de transição está composta por gente mencionada no inquérito relativo à Caixa de Pandora. Ou seja, de pragmáticos que entendem que não há outra maneira de se manter a governabilidade senão por meio da distribuição privada (e ilegal) de verbas públicas.

Internamente, temos que confrontar o PV-DF, que integrou o bloco de alianças em torno de Agnelo, e que pouco ou nada tratou em nível partidário, compreendendo a questão como privada da liderança do partido. A nova maneira de fazer política proposta por Marina ainda não se tornou numa onda verde que renove as práticas internas do próprio PV.

O enfrentamento se dá por dentro, também.

Guinada (ou guinado) à direita

Nasci evangélico. Esse fato tinha alguns signficados: a salvação da alma mediante a aceitação do sacrifício de Cristo para perdão dos pecados; um código de ética e moral (com aspectos negativos e positivos); a Bíblia como referência maior para as questões de fé, e para esse código de ética e de moral; entre outros de menor relevância.

Com o tempo, esses referenciais foram perdidos. A salvação para a eternidade foi substituída por uma proteção imediata de interesses e desejos pessoais do crente. O código de ética e de moral desapareceu, foi para o lixo. A Bíblia se tornou um manual de magia para manipulação da divindade a serviço do crente, que se tornou o Soberano do Universo. Levei as definições ao limite, mas não fogem muito disso.

Quem ficou com os conceitos antigos passou a ser visto a partir dessa ótica ressignificada, sobretudo pela pregação massificadora das igrejas ditas neopentecostais. Pessoalmente, conquanto também um pouco distante daqueles referenciais antigos, permaneci no âmbito de valores e conceitos históricos do protestantismo, ainda que alguns deles sejam marginais.

Politicamente passo pela mesma situação. A ressignificação de conceitos promovida ao longo dos últimos anos parece ter me colocado à direita. Particularmente por causa de minha miltância no combate à corrupção. Diversos interlocutores que apóiam nosso atual governo têm definido o combate à corrupção como coisa do pessoal da direita.

Eu fiquei onde tenho estado desde 2004, pelo menos. Mas, fui guinado à direita, pois combate à corrupção agora é coisa do DEM e da mídia reacionária, para alguns, e panfletagem udenista para outros. Além disso, descobri na eleição que o grande paradigma de cidadania para nossa presidenta eleita é a inclusão de todo brasileiro no mercado de consumo, ao tempo em que eu continuo acreditando em ideias superados como libertação e a emancipação do ser humano mediante a educação e o estudo. Mais uma guinada à direita?

Vem a minha mente o alerta de Isaías: ai dos que chamam a escuridade de luz e a luz de escuridade, dos que põem o amargo por doce e o doce por amargo. Deixei de ser evangélico e de ser de esquerda. Ou foram os evangélicos e os de esquerda que me deixaram?

Os dois riscos da volta da CPMF

Quando Adib Jatene conseguiu emplacar a CPMF ganhou mas não levou: a nova contribuição foi, de fato, para a Saúde, mas as antigas fontes de financiamento foram redirecionadas, e a conta para a Saúde não mudou. Esse é o risco nº 1.

O segundo é mais grave: muito dinheiro da Saúde hoje vai para o ralo, por falta de controle. Saúde municipalizada demanda estruturas de controle ágeis, bem equipadas, bem preparadas – isso não existe hoje. A CGU sorteia os municípios nos quais vai fazer fiscalizações à base de 500 por ano, no máximo. Ou seja, passa hoje em Santa Rita do Passa Quatro e vamos ver passar mais uns dez anos antes que volte lá. O TCU não vai. O Denasus foi desmontado.

Se o dinheiro está indo para o ralo o que vamos ter é mais dinheiro indo para mais ralos.

Se houver um projeto sério de reestruturação do Denasus com a volta da CPMF acreditarei que se trata de algo sério. Se não houver, os riscos de desvios aos milhões é enorme.

O sepultamento definitivo dos valores oposicionistas do PT

A ética na política foi bandeira do PT na oposição, talvez a mais incisiva, em função da maneira patrimonialista como os governos usualmente tratavam a coisa pública. A denúncia constante, a fiscalização próxima, o zelo com o patrimônio público foram a tônica da oposição política feita pelo PT ao longo dos anos, Lula a frente.

Os primeiros passos do Governo Lula denotavam algum pragmatismo. De maneira mais específica, entregar o então DNER ao PL fazia tal denúncia. O episódio do mensalão foi a primeira vez que Lula deu claras pistas de que tinha assumido pragmaticamente a compra de apoio político. Sua declaração, em Paris, no auge daquela crise (“o PT só fez o que os outros partidos fazem”), além de deixar que víssemos com clareza tal opção, causava, pela primeira vez, um abalo de grandes proporções na estrutura de valores que norteava o eleitorado do PT, ainda ávido por uma nova prática política, não clientelista, não fisiológica, que repudiava a corrupção.

Naquele momento, ainda críamos nos ideais que foram sintetizados de maneira tão clara no discurso de posse de Lula:

“O combate à corrupção e a defesa da ética no trato da coisa pública serão objetivos centrais e permanentes do meu governo. É preciso enfrentar com determinação e derrotar a verdadeira cultura da impunidade que prevalece em certos setores da vida pública. Não permitiremos que a
corrupção, a sonegação e o desperdício continuem privando a população de recursos que são seus..”

O segundo mandato de Lula iniciou-se com a sombra do mensalão, mas sem, ainda, a completa assimilação desse jeito de fazer política, revelado pelo mensalão. Com o tempo, o eleitorado de Lula e do PT foi admitindo a ideia de que não há outra maneira de se fazer política. Os sucessivos episódios de corrupção foram, aos poucos, perdendo impacto no eleitorado, e deixando de produzir sustos. Assim começou a ser superada, e, por fim, enterrada, aquela noção de ética na política, na qual o corrupção era um câncer a ser extirpado. Ao contrário, o favorecimento de aliados com dinheiro público foi aceito pelo eleitorado. A compra do apoio político, ainda que isso não estivesse absolutamente claro para o eleitor, não assustava mais. A classe política já tinha feito tal assimilação anteriormente.

A eleição de Dilma seria o teste final para a vitória dessa tese: o sucesso de uma candidata sem carisma, que dependia da força do partido, e do carisma e do sucesso do Presidente, demonstraram a aceitação final do eleitorado desse modus operandi da política conduzida por Lula ao longo desses anos. Muito mais se confirma tal tese quando se verifica que o espectro das alianças do PT inclui Calheiros, Barbalho, Sarney e Collor. Não se trata de uma afirmação, feita pelos eleitores, do tipo “nós queremos que seja assim”; é mais como “não nos importa que seja assim; se assim tem que ser”. A irrefutável vitória nas urnas proclama o fim da ética na política como valor para o eleitorado. Assim, gostemos ou não, fica definitivamente sepultada a ética como valor na política – bandeira tão cara ao PT oposicionista, em favor de uma postura pragmática que primeiro foi aceita pelos políticos, e, a seguir, pelos eleitores.

Nesse particular, não cabem comparações com outros partidos, pois não se trata disso. O que se comparam são posturas ao longo do tempo: do partido (PT) e do eleitorado. Talvez seja o caso de se perder a ingenuidade de seguir lutando contra a corrupção, talvez seja o caso de se oferecer ainda mais dedicação a esse projeto.

Talvez, ainda, a questão da corrupção seja apenas um efeito colateral de bens muito maiores que virão pela frente. Mas, por mais que eu tente conceder a essa ideia um mínimo de razoabilidade, não consigo. Acho difícil que caminhos tão tortuosos possam nos levar a um porto seguro.