Francisco Pascacio Moreno – Perito Moreno

Diante do magnífico glaciar Perito Moreno (El Calafate, Patagônia argentina), perguntei-me quem seria esse personagem, ao qual se homenageia dando seu nome a vários locais públicos em toda a Argentina. Em particular, nomear aquele glaciar me pareceu uma deferência muito especial – entendi que Perito Moreno provavelmente tinha sido um ator importante, diferenciado na história argentina. Pude conhecer um pouco de sua vida por meio de Roberto Hosne, autor de “Perito Fancisco Moreno – El que pensó la Patagonia”, Editorial Albatros, Buenos Aires, 2011.

Francisco Pascacio Moreno – o Perito Moreno – nasceu em Buenos Aires em 1852. Leitor das aventuras de Marco Polo e do personagem Simbad o Marujo, desde cedo começou a participar de explorações e expedições ao território da Patagônia, adquirindo conhecimentos geográficos, geológicos, antropológicos, etnográficos e paleontológicos, entre outros. Explorou exaustivamente a região, deu nome a rios lagos e montanhas, conviveu com índios, submetendo-se a inúmeras situações de risco e de perigo. Por pouco não foi morto por indígenas, em mais de uma ocasião.

Ao longo de sua vida, foi sendo reconhecido por outras virtudes, na qualidade de educador, escritor, estadista e humanista. Além das inúmeras expedições à Patagônia, duas outras realizações merecem destaque: sua atuação na demarcação dos limites fronteiriços com o Chile, e a criação do Museu de Ciências Naturais na cidade de La Plata. Em meio a governantes burocratas e autocentrados, que viam a Patagônia como quintal de lucro para si mesmos e seus amigos, Perito Moreno demonstrou espírito público elevado ao doar para o governo as terras que recebera na região como pagamento por seus exaustivos trabalhos na demarcação fronteiriça. A localidade era nada mais nada menos do que o Parque Nahuel Huapi (região de Bariloche), que foi o terceiro parque nacional a ser criado (1903) em todo o planeta (depois de Yellowstone, nos Estados Unidos, e Banff, no Canadá).

Pascacio Moreno faz parte daquela galeria de heróis nacionais que sonhou o melhor para seu país, se doou por ele, enquanto a maior parte dos demais de sua geração pensava quase que exclusivamente no bem próprio. Pensou a ocupação, a exploração e o desenvolvimento da região como uma grande força motriz para o crescimento da nação, considerando sempre a presença dos nativos, que vinham sendo dizimados pelo governo federal. Sua abordagem desses temas, assim como a própria entrada naquela terra, eram feitas com tal consciência acerca das questões ambientais que fizeram dele alguém muito a frente de seu tempo. Pascacio Moreno pensava o país, pensava sua nação, pensava seu povo.

Era crítico do “bolsa-família” de seu tempo. A respeito da ajuda governamental prestada aos indígenas, declarou: “Los vi alli sentados al sol, las mujeres despiojaban a los hombres, los cuales fumaban con deleite… y como el gobierno les pasaba ración de carne, azúcar, yerba y otras dulzuras de la civilización, sin enseñarles nada, asegurada la subsistencia, esperaban su destino sin mayores preocupaciones”.

Aventurou-se na vida pública, tornando-se deputado. Segundo Hosne, apenas para “presentar proyectos que estima de urgente necesida y que de outra manera no hubieran sido elevados y tratados con la necessária convicción e idoneidad”. Após entender que já tinha cumprido sua missão ali, renunciou ao mandato para dedicar-se à educação, atividade a respeito da qual afirmava: “Es sabido que donde el trabajo y la escuela reinan, el cárcel se cierra”. Ironicamente, Perito Moreno, em sua custosa incursão pelo Rio Santa Cruz, ao alcançar o Lago Argentino, não prolongou a expedição ainda mais na direção oeste, deixando de conhecer o famoso glaciar que posteriormente receberia seu nome. Para o Brasil de hoje, além de outras lições também importantes, Pascácio Moreno nos alerta de que é hora de investirmos seriamente em educação.

A dificuldade de se discutir o que realmente importa

Uma das grandes dificuldades para superação dos graves problemas enfrentados pela Administração Pública, hoje, senão a maior, é a quase impossibilidade de se estabelecer o debate sobre as questões realmente relevantes que muitas vezes não se revelam com clareza à primeira vista.

Exemplo disso, a meu ver, é a reforma da Previdência. Conquanto o tema não esteja dentro de minha área de estudo e conhecimento, vislumbro que a questão principal, e primeira, seria uma definição conceitual, qual seja, a adequação e viabilidade das fontes de financiamento das aposentadorias. Alerto para o fato de que não estou aqui propondo uma reflexão sobre o tema mais amplo da seguridade social, mas, especificamente a respeito de aposentadorias.

Obviamente, a contribuição principal vem do próprio servidor (público o privado). A partir daí já se estabelecem algumas reflexões necessárias: os empregadores devem contribuir com que valor, relativamente à contribuição do servidor? E, por último, seria adequado que outras fontes, tributárias, fossem utilizadas para esse fim?

Penso que a reforma deveria necessariamente partir desse debate.