O mensalão de Lula

Quem de fato está sendo julgado é Lula. Por inviabilidade política e bom-senso da Procuradoria-Geral da República e da Corte Suprema o grande réu ficou de fora. E ele é, de fato, o grande personagem em todo esse processo, que pode ser dividido em quatro atos.

No primeiro deles, que pode ser intitulado de “a convergência pragmática”, Lula perpetra um esquema de compra de apoio político entre os partidos mais conservadores e reacionários do País, para poder governar sem percalços, controlando o dia a dia do Poder Legisaltivo Federal. Ou seja, rende-se ao mito da governabilidade – aquele que todos dizem que não pode ser desafiado.

No segundo ato, surge o Lula que, mesmo pragmático, não deixa de lado muitas de suas convicções históricas. Comandando “a bela renovação”, indica para o Supremo Tribunal Federal Carlos Ayres Britto e Joaquim Barbosa, que viriam a ser os dois maiores personagens do julgamento do mensalão. Peluso e Carmen Lúcia completam esse time. Lewandovski ainda pode ser considerado uma boa indicação a despeito de suas tentativas forçadas de poupar os grandes nomes do esquema. O ato realmente falho é Toffoli, que não tem cacife para ladear seus colegas de Supremo, o que ficou demonstrado no julgamento, mediante sua incapacidade de produzir qualquer peça minimamente consistente de defesa (sim, ele não deixou de advogar para os réus).

O terceiro ato de Lula é desesperado e ingênuo, e pode ser denominado “ato falho”. Ao tentar a aproximação com um ministro do STF, Lula expõe suas contradições: não foi procurar Ayres Britto, Barbosa, Peluso ou Lúcia, por ele indicados – foi buscar Gilmar Mendes. Ele bem conhecia o caráter e a postura de cada um daqueles quatro, e suspeitava ter acolhida naquele indicado por seu antecessor.

O quarto e último ato, até aqui, é “a cabeça erguida”. Lula está certo ao aconselhar seus colegas a manter a cabeça erguida, por dois motivos. Em primeiro lugar, por acreditarem em um projeto e se entregarem a ele de corpo e alma. Em segundo lugar, por protegerem seu mestre e líder.

A única e necessária expectativa pós-mensalão é o aprofundamento do processo de moralização da atividade política, particularmente da gestão dos recursos públicos. O julgamento do mensalão foi essencialmente político. A clara mensagem da mais alta corte do País foi ouvida em bom som. Os ministros condenaram o próprio presidente que os indicou por utilizar de maneira indevida os recursos públicos, por comprar apoio político.

Esse fato é de uma riqueza excepcional. Em primeiro lugar porque se estabelece como o mais emblemático processo de aprofundamento democrático e republicano do País pós-regime militar. Em segundo lugar porque emite um aviso claro aos governantes a respeito dos limites republicanos para acesso aos recursos públicos. Em terceiro lugar porque renova esperanças dos cidadãos de bem.

Para os amantes do PT se a história terminar sem alguma condenação da privataria tucana, da compara de votos para a reeleição de FHC ou do mensalão mineiro, terá sido cometida uma injustiça histórica. Se qualquer uma dessas condenações vier a ocorrer um dia teremos dado outros bons passos na direção da moralização. Mas, isso pouco ou nada importa. Precisamos entender que dinheiro público é dinheiro sagrado, inapropriável por particulares, mesmo diante da suposta excelência de alguns fins – a gestão dos recursos mediante o interesse público, e somente ele, já é um valor em si. Precisamos aprender, também, a desmontar o mito da governabilidade.

Foi isso que o STF disse a Lula, mensagem cujo entendimento precisa ser despartidarizado.

2 pensamentos em “O mensalão de Lula”

  1. Ziller,paz!

    A corrupção é uma epidemia e isto nem se discute. A sociedade precisa de se mobilizar, em que pese as poucas iniciativas.
    Estou dirigindo uma organização, Tearfund, que tem no tema da Governança e Corrupção uma de suas pautas.
    Estamos organizando uma pequena discussão em São Paulo no dia 22.11.2012.
    Não encontrei seu email, mas o procuro faz tempo.
    Mais informações: http://www.tearfund.org
    serguem.silva@tearfund.org
    Aguardo seu contato.

    abraços,

    Serguem

  2. HELLO ZILLER,

    Tenho acompanhado todos os posts e sinto-me aliviada em saber que alguém como vc continua lutando arduamente contra a corrupção nesse nosso país. Gostaria, inclusive, de participar dessa luta.
    Me envia teu e-mail,
    Solange STJ (lembra-se?)

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