Felipe Crema entendeu tudo

Felipe Faria Crema tem dez anos de idade. Tinha que responder algumas questões relativas ao processo eleitoral que estamos vivendo. Uma questão mandava que ele colasse as propostas de um candidato no caderno, e, a seguinte, mandava que ele as explicasse.

Felipe trabalhou com meu folheto, e na segunda questão escreveu assim:

“Um dos benefícios – a Saúde, vai ter mais fiscalização, e, com isso, vai melhorar. Outro benefício – o projeto “Escola Centro de Convivência Comunitária” vai tratar das importantes questões: meio ambiente e segurança”.

Felipe entendeu melhor do que nossas autoridades, que querem acabar com o controle no País – entre elas o Presidente, pois percebeu que a existência do controle – e não sua ausência, vai fazer a saúde melhorar.

Felipe Crema entendeu tudo.

Mar de vidro ou mar de lama

Caio Fábio escreveu o livro “A Bíblia e o Impeachment”, por ocasião do ocaso do governo de Fernando Collor. Nele, menciona a visão do trono de Deus que teve o apóstolo João, conforme narrada no livro de Apocalipse. Aquele texto diz que Deus estava assentado num trono, e por baixo desse trono havia “um como que mar de vidro”. Caio comparou ao Governo de Collor, no qual encontrara-se um mar de lama.

Um trono, para que não produza corrupção, precisa estar rodeado por um mar de vidro – ou, de outra forma, ter a qualidade da transparência.

Se eu for eleito, cobrem transparência no desempenho do mandato – para meu próprio bem.

“Há uma rachadura em todas as coisas…

…e é por ali que a luz penetra”.

Essa é uma das frases que considero mais interessantes de Leonard Cohen – compositor canadense. Toda a letra dessa música é bonita, de poesia impactante: “toquem os sinos que ainda podem ser tocados”…  O título da música é Anthem.

Se bem entendi a letra, Cohen diz que devemos deixar de lado passado e futuro e tocar os sinos que ainda podem ser tocados, concentrar-nos naquilo que é possível salvar agora. Tempos bons e maus virão novamente, o que interessa é o presente.

E a rachadura, os defeitos que todas as estruturas têm contêm em si a possibilidade de sua transformação, de sua redenção.

Cohen é sombrio. Mas mesmo diante de seu profundo realismo diante da democracia e do futuro, Cohen professa a esperança. Não é outra a ideia que vem da afirmação de que é “por ali que a luz penetra”.

Não é necessário ir muito longe para perceber que Cohen também tem pouquíssima esperança nos políticos. Talvez só com muita desconfiança de si mesmo e de todo ambiente no qual se coloca é que um político possa perceber a luz penetrando as rachaduras.

Uma TV de LCD na sala

O Brasil não vai bem, ao contrário do que se afirma a todo momento.

A ilusão do crescimento econômico abafa a tragédia social que vivemos a cada dia – muita miséria, falta de serviços de educação e saúde, péssimas condições habitacionais para grande parte da população. Mas, todo mundo tem uma TV LCD na sala, então nossas autoridades estão felizes e se sentem legitimadas para fazer tudo o que querem, inclusive usufruir do dinheiro público como bem entendem.

Retiram para seus caixas particulares e para as campanhas, pois, vencendo, vão continuar tirando para tirar sempre. A princípio, ainda se tentava justificar essa atitude como necessária para que pessoas bem intencionadas chegassem ao poder e pudessem promover o bem público. Nesse processo, tornaram-se iguais aos demais. E já não se sabe mais se estão no poder para se beneficiar do dinheiro público com fins privados, ou se querem o dinheiro público para estar no poder e atender ao bem público.

Meio confuso, não?… No frigir dos ovos, a questão é bem simples: o seu dinheiro está indo parar no bolso dos governantes, e o País vai de mal a pior – embora você tenha dinheiro para comprar uma TV de LCD, para comprar um carro e para viajar ao exterior.

Essa conta não fecha, e ainda vamos pagar caro por ela.

Auditoria cívica – o que é isso?

Já temos dois grupos em vista para a Auditoria Cívica da Saúde. Um em São Sebastião e outro no Itapuã. Realizar essa atividade como parlamentar distrital possivelmente ajudará a potencializar seus resultados.

A ideia é simples: um grupo de cidadãos, voluntários, será treinado para compreender o funcionamento dos hospitais e demais unidades de saúde pública. Em um dia determinado, esse grupo vai à uma dessas unidades para entrevistar os usuários, os servidores e fazer uma avaliação do atendimento.

Algumas perguntas básicas vão orientar o trabalho: os pacientes estão sendo atendidos de maneira adequada? Seus problemas estão sendo resolvidos? A unidade de saúde dispõe de equipamentos em condições, materiais e medicamentos? Hà profissionais de saúde, das especialidades mais procuradas, à disposição da população?

As constatações dos audiores cívicos serão levadas para os profissionais responsáveis por essas unidades. O grupo que faz o trabalho estará pronto, também, a colaborar naquilo que for possível para a solução dos problemas encontrados.

Não há saída fácil para a crise da saúde. De qualquer maneira, a fiscalização cidadã é uma necessidade imperiosa para melhoria dos serviços prestados.

Marcha contra a corrupção e pela vida

Um herói chamado Arimatéia Dantas convoca seus amigos e sai caminhando pelo sertão do Piauí, de cidade em cidade, fiscalizando obras relativas financiadas com recursos federais. Os combatentes se vestem com camisetas e boinas amarelas. Nos dias de caminhada, percorrem de 15 a 30 km.

Ano passado estive com eles em Oeiras. O grupo caminhou mais de 300km ao longo de mês de julho, eu e Solimar, represtando a Unasus (associação que congrega os auditores do SUS) caminhamos 15km nos dois dias que estivemos com eles, no caminho de Oeiras a Nazaré. Agora, em 2010, em campanha, não pude ir. Representando o IFC estiveram lá Edimar e Inairo.

Em 2005, vieram caminhando para o Fórum Global Anti-Corrupção, realizado pela CGU – foi quando os conheci.  De lá para cá venho tentando aprender com Arimateia, esse campeão da luta pela vida, que é advogado de movimentos sociais, e militante das causas da justiça.

Arimateia e a esposa levam o filho pequeno – Gandhi – nas caminhadas. Ele segue no carro de apoio, mas está junto, vendo os pais lutando pelo bem público. O movimento desenvolve uma espiritualidade profunda. Quando chegam nas cidades, eles profetizam um Brasil que já vai sendo construído, livre da corrupção.

O grande ausente

Não se trata de um candidato, mas, de um tema que não marcou presença no debate dos presidenciáveis: o controle das contas públicas.

A prática de evitar o tema esteve evidente – o tanto que uma ausência pode ser considerada evidente… – desde os debates da corrida presidencial de 2002. Até aquele ano, cabia ao PT levantar a bandeira, que, a partir dali, não foi mais levantada.

Não assisti ao final do debate, mas mesmo que o assunto tenha sido mencionado, sua importância na campanha é mínima. Minha candidata, Marina Silva, foi a única que tratou do problema da corrupção, de maneira rápida,  em algumas intervenções, dizendo que lutaria contra ela com as “unhas da jaguatirica”.

Plínio de Arruda Sampaio, que se coloca como diferente de todos os demais candidatos – todos execráveis capitalistas, não dá importância ao tema. Dilma não pode falar no assunto. Serra não se interessa. Marina, em sua ética diferenciada, não quer atacar ninguém, e talvez por isso também evite o tema.

E parece que ninguém sente falta, mesmo porque raramente se fazem perguntas aos candidatos sobre o tema. Talvez a lógica da governabilidade tenha prevalecido, e a lei de Lula (“o PT só fez o que todos os outros partidos fazem”, ao explicar o mensalão) tenha sido sancionada no universo e no espírito da política brasileira.

Enfrentar a cristalização desse absurdo é um desafio e tanto.

Tema obrigatório

Esse tema é Roriz, sem dúvida…

Destaco o fato de que a cassação da candidatura de Roriz – um feito emblemático para todo o País – deve-se à mobilização social. É fato que tivemos uns heróis como Marlon Reis, Cristiane Vasconcelos, Jovita Rosa, Caio Magri, Chico Whitaker que protagonizaram a condução do processo, mas, sem a adesão massiva da população – já expressa no número de assinaturas colhidas – principalmente para pressionar os parlamentares a aprovar a lei, nada disso teria ocorrido.

A agência triunfou sobre a estrutura (fazendo menção a um post anterior).

É um momento especial que estamos vivenciando. Minha expectativa é de que essa onda de renovação possa deixar de fora da Câmara Legislativa a turma que faz campanha sem espírito público, sem cultivar a justiça como valor central para a ação política.

Impessoalidade

Li recentemente, para fazer um trabalho para  meu curso na UnB, o livro Violência e Ordens Sociais, dos autores Douglas North, John Wallis e Barry Weingast. Entre outros, eles trabalham com um conceito interesse de evolução social, caracterizando as sociedades mais avançadas como sendo de “livre acesso”.

Dentre outras características, essas sociedades valorizam a impessoalidade. Mas, o que significa isso?

Dois exemplos podem nos fazer compreender exatamente o que eles querem dizer: a) a polícia prende e a justiça pune quem infringe a lei, independentemente de quem seja a pessoa; e b) o cidadão que necessita de atendimento médico (saúde pública) recebe o que precisa na hora em que precisa independentemente de conhecer algum médico ou outro funcionário do hospital ou posto de saúde, ou qualquer pessoa que tenha força para fazer a indicação.

Difícil para nós, não?

Deputado bom de obra

Dê uma olhada nas propostas feitas pelos candidatos a um cargo legislativo: quase todos dizem que, se eleitos, vão tomar atitudes que, na verdade, competem ao Governador ou ao Presidente. Tem gente que vai resolver os problemas dos ônibus. Outros vão tocar obras. Outros vão criar programas sociais.

Trata-se de desconhecimento completo do que seja a competência de um parlamentar, ou um conhecimento completo das relações excessivamente próximas entre os poderes executivo e legislativo. De um lado, os candidatos parecem não saber que suas duas principais funções seriam legislar e fiscalizar o poder executivo. De outro, parece que eles já entenderam que é possível participar ativamente do Governo, mediante acordos de troca, que podem viabilizar alguns daqueles projetos.

Ao escolher um candidato a uma instância do poder legislativo, veja se ele tem uma noção – minima que seja – das responsabilidades que envolvem o cargo. Não mande para a Câmara dos Deputados ou para a Câmara Legislativa quem pleiteia o cargo porque é bom de obra…